I – O Perdão

Mateus 18.21-35

A ênfase este ano é Cuidando do Reino de Deus. Mas para cuidarmos de algo devemos conhecer e saber do que se trata.

O Reino de Deus é um conceito metafísico, com reflexões no mundo material em que vivemos, mas principalmente o Reino de Deus deve inicialmente nascer no coração de cada um.

Isto significa dizer que para cuidarmos devemos estar profundamente envolvidos e transformados pelos seus pricípios.

Na elaboração deste sermão nasceu a idéia de iniciar uma série de estudos que abordará as características indicadas por Jesus com relação ao Reino de Deus e como devemos nos portar como cidadãos deste reino.

E este é o primeiro, e como esta idéia nasceu repentinamente ele não está seguindo uma ordem, cronológica assim como Jesus explanou, talvez os próximos sigam uma cronologia.

Bem então como estamos tentando aprender mais para agirmos de forma melhor como cristãos vamos começar com um tema muito importante, e bastante difícil, que é o perdão.

Para tanto vamos ver o que Jesus nos ensina a respeito disto.

Abramos nossas Bíblias no Livro de Mateus 18.21-35

Este capítulo faz parte do relato de Mateus, e é o quarto grande bloco de discursos que aparece neste Evangelho, e desde o início do capítulo 18 Mateus relata as instruções que Jesus estava dando ao povo, mais precisamente ao povo da nova aliança. Estes versículos são muito preciosos e fundamentais para nos compreendermos verdadeiramente o que é ser Cristão.

Vamos entender um pouco mais profundamente o que Jesus quer nos dizer com essa parábola.

Análise do Texto

(Mateus 18:21) – Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?

(Mateus 18:22) – Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete.

Comentários : Jesus estava neste grupo de discurso respondendo a um questão levantada pelos discípulos no início do capítulos onde eles questionavam Jesus sobre quem é o mais importante no Reino dos Céus, é bem provável que eles ainda estivessem entendendo a questão do reino como um reino terreno, que faria com que Israel dominasse os demais reinos sob um governo teocrárico. E Jesus então tenta aprofundar o entendimento sobre o que é o reino e suas implicações na vida de cada um.

Chega então um momento em que Pedro interrompe Jesus, talvez aturdido com tanta informação e conceitos tão diferentes de tudo que já ouviram, e pergunta, já fazendo uma afirmação sobre a questão do perdão.

O numero sete tem um significado muito particular para o Judeu, e desta forma Pedro achava que já seria uma quantidade muito grande em que devemos perdoar, mas Jesus amplia este conceito e coloca de forma que esta informação é multiplicada por setenta, ou seja está dizendo que o perdoar deve ser constante na vida do cristão, ou seja sempre devemos perdoar, não há um limite.

(Mateus 18:23) – Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos;

Comentários : Aqui Jesus começa a contar a parábola do empregado mau, e faz uma referência direta com o reino dos céus, ou seja é uma comparação.

(Mateus 18:24) – E, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos;

Comentário : É chegada a hora de prestar contas, e foi apresentado um que devia dez mil talentos.

O valor desta dívida é um absurdo para um trabalhador, hoje seria equivalente a algo em torno de 275 mil anos de trabalho, (5 milhões de dólares, ou algo em torno de R$ 8.700.000,00,) (170t de ouro) se para nós hoje isso é uma quantia fabulosa, mesmo trabalhando toda a minha vida não conseguira juntar todo esse dinheiro, imagine na época de Jesus, um trabalhador jamais conseguiria juntar todo esse dinheiro era algo impossível de se pagar.

(Mateus 18:25) – E, não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele, e sua mulher e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse.

Comentário : Este era o procedimento comum que se dava a devedores que não tinham como pagar suas dívidas, mesmo assim sendo vendido tudo o que possuía em conjunto com toda a sua família essa divida fabulosa não seria quitada, porém o empregado e toda a sua família teriam que trabalhar para outros como escravos.

(Mateus 18:26) – Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei.

(Mateus 18:27) – Então o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida.

Comentário : O empregado entrou em desespero, percebeu no grande problema que havia se metido e pede clemência para seu Rei.

E então o rei o perdoa, não aumenta apenas o prazo para pagamento, pois sabia que ele nunca poderia pagar, mas graciosamente o perdoa, perdoa uma divida imensa, gratuitamente por compaixão.

(Mateus 18:28) – Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves.

Comentário: Curiosamente este agraciado encontra um colega seu que deve-lhe cem dinheiros, que refere-se a moeda romana a quantia fica em torno de oito dólares (30g de ouro) hoje, é notável a diferença de valores entre a divida de um e de outro, a divida do primeiro era enorme impagável, a do segundo um divida para com o outro que comparativamente não significava muito.

(Mateus 18:29) – Então o seu companheiro, prostrando-se a seus pés, rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei.

Comentário: O seu conservo pede então compaixão, promete que pagará.

(Mateus 18:30) – Ele, porém, não quis, antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida.

Comentário: Mas não houve compaixão, não houve perdão, não houve graça, e ele não perdoa, quer cobrar aquilo que acha ser merecedor.

(Mateus 18:31) – Vendo, pois, os seus conservos o que acontecia, contristaram-se muito, e foram declarar ao seu senhor tudo o que se passara.

(Mateus 18:32) – Então o seu senhor, chamando-o à sua presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste.

(Mateus 18:33) – Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti?

Comentário: Aquele por quem foi usada de compaixão, de perdão não teve capacidade de perdoar.

(Mateus 18:34) – E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia.

(Mateus 18:35) – Assim vos fará, também, meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas.

Contextualização

Devemos primeiramente entender que o Reino de Deus tem valores essencialmente diferentes dos que caracterizam as instituições terrenas e as organizações seculares.

O padrão de ética do Cristão deve ser normalmente maior do que é o normal na sociedade em geral, o cristão não deve se nivelar pela média, mas sim por valores superiores que a média.

Tasker em seu comentário sobre o livro de Mateus afirma:

“A comunidade messiânica é primeiramente e acima de tudo a comunidade dos remidos. Deve a sua existência ao perdão tornado possível pela morte do Messias. (…) Impõe-se, pois a cada membro o supremo dever de do qual em de estar sempre cônsio sem jamais cansar-se, de perdoar o mal pessoal que acaso lhe façam. Uma vez abandonada a disposição para perdoar, perde-se a raison d’être, a razão de ser da comunidade cristã. A sociedade dos perdoados fica sem sentido, se os que são perdoados não perdoam.(…)” [1]

Observando o texto verificamos que temos em termos literários quatro personagens : O rei, o sevo devedor, o companheiro de trabalho do devedor, os outros empregados ou a multidão.

Comparativamente podemos entender que O Rei é Deus, o servo devedor somos nos pecadores, o companheiro de trabalho é todo aquele que também nos fez alguma coisa e que necessita de perdão, os outros, são aqueles que testemunham nossas atitudes.

Ora partindo do pressuposto que quando aceitamos o sacrifico de Jesus somos perdoados por Deus de todas as nossas transgressões, ou seja somos perdoados de uma dívida que não teríamos condições nenhuma de pagar,e que seriamos chamados ao seu tribunal como grandes pecadores e devedores, mas fomos graciosamente perdoados, fomos feitos livres e melhor de devedores agora somos filhos, fomos perdoados de uma dívida impagável.

Como deverá ser então o nosso comportamento com aqueles que nos são devedores? Como deverá ser o nosso procedimento com aqueles a quem devemos perdoar?

Aquele servo não usou de compaixão, tampouco penso que entendeu a grande misericórdia que o Rei usou para com ele, mas mesmo assim ele não foi capaz de perdoar, algo muito mais insignificante.

Se compararmos o perdão de Deus em nossas vidas, há algo que não possamos perdoar?

É claro que é um processo muito difícil, o perdoarmos alguém que nos traiu, que talvez mentiu, que nós enganou, ou tantas outras dificuldades que passamos, mas como cristãos a nossa meta deve ser perdoar, e perdoar e perdoar e perdoar sempre. Toda pessoa que demonstra estar sensivelmente arrependida, deve ser perdoada.

Lamento dizer mas não há justificativa para não perdoar. Isso não significa dizer não ser necessário o cumprimento justiça da lei. Mas para nós em nosso coração deve sempre haver espaço para o perdão, este perdão deve ser exercido como forma de agradecimento pela graça da salvação, pelo perdão que recebemos sem merecer.

“O perdão é o sinal de uma fé verdadeira.”


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[1] Tasker, R.V.G., Mateus Introdução e Comentário, pg 138, Ed. Vida Nova.